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Um dos maiores símbolos gastronómicos da cidade do Porto voltou finalmente a abrir portas. A histórica A Regaleira reabriu ao público no dia 1 de julho de 2021, devolvendo à Invicta a receita original da francesinha, aquela que nasceu em 1952 e que marcou gerações.
Depois de um encerramento forçado em 2018, o regresso deste emblemático restaurante representa muito mais do que uma simples reabertura: é o recuperar de uma tradição profundamente enraizada na identidade portuense.
Uma reabertura esperada… e inevitável
Para os irmãos Francisco Passos e Tiago Passos, netos do fundador António Passos, a reabertura sempre foi uma certeza, mesmo sem saberem quando ou como iria acontecer.
“Nunca houve um momento-chave. Quando fechámos, sabíamos que íamos reabrir”, revelou Francisco Passos.
A saída do espaço original, motivada pela especulação imobiliária, obrigou a família a interromper temporariamente a atividade. Ainda assim, nunca deixou de existir a vontade de devolver à cidade um dos seus maiores ícones gastronómicos.
Novo espaço, mesma alma
A nova Regaleira surge na mesma rua, a Rua do Bonjardim, a poucos metros do local original, mantendo a ligação emocional com os clientes habituais.
Embora o espaço tenha sido renovado, há vários elementos que preservam a memória da casa:
Fotografias e quadros antigos
Objetos do restaurante original expostos
Um lambrim dos anos 50 na sala inferior
Parte da equipa histórica de sala
“Os equipamentos são novos, mas o conceito e as pessoas são os antigos”, sublinha Francisco.
A francesinha original… tal como nasceu
O grande destaque continua a ser a verdadeira francesinha da Regaleira, uma receita única, diferente das versões mais populares que hoje se encontram pela cidade.
Criada em 1952 por Daniel David da Silva, esta versão distingue-se por vários detalhes:
Utiliza pão biju em vez de pão de forma
A carne é perna de porco assada, e não bife
Não inclui automaticamente ovo nem batatas fritas
O molho mantém a receita original, guardada ao longo de décadas
Mais do que um prato, trata-se de um legado gastronómico que permanece praticamente inalterado desde a sua criação.
Uma história que nasce de uma homenagem
A origem da francesinha está envolta em curiosidade e criatividade. Conta-se que Daniel David da Silva, inspirado pelas suas viagens pela Europa, criou este prato como uma homenagem às mulheres francesas, consideradas mais ousadas e “picantes”.
O resultado foi uma sanduíche intensa, acompanhada por um molho igualmente marcante, que rapidamente conquistou os clientes da Regaleira. O nome surgiu naturalmente: francesinha.
Uma novidade à altura da tradição
Apesar do respeito pela tradição, a nova fase da Regaleira traz também inovação.
Uma das grandes novidades é a criação de uma cerveja artesanal exclusiva, desenvolvida para harmonizar com a francesinha. O projeto contou com a colaboração do mestre cervejeiro Gilberto Palmeira, que criou várias receitas até chegar à versão final escolhida.
Coragem em tempos difíceis
A reabertura acontece num contexto particularmente desafiante para a restauração, marcado pelos efeitos da pandemia.
“Foi um risco extremamente ponderado”, admite Francisco Passos. “Sabemos que não é o momento ideal, mas era a oportunidade que tínhamos.”
Num período em que muitos restaurantes encerram, a decisão de reabrir revela não só coragem, mas também uma forte ligação emocional à cidade e à sua história.
Mais do que um restaurante, um símbolo da cidade
A Regaleira não é apenas mais um restaurante no Porto. É um espaço que faz parte da memória coletiva, um ponto de encontro de gerações e um marco da identidade gastronómica da cidade.
O regresso da casa onde nasceu a francesinha original representa, por isso, um momento especial para todos os portuenses, e para quem visita a cidade em busca da sua essência.
O sabor de sempre, no Porto de hoje
Quem entrar na nova Regaleira encontrará um espaço renovado, mas com a mesma alma de sempre. A mesma família. A mesma história. O mesmo sabor.
E, acima de tudo, a certeza de que algumas tradições resistem ao tempo — e continuam a fazer do Porto um lugar único.
