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Cultura, Economia, Porto

Inaugurado a 9 de outubro de 1976, o Shopping Brasília assinalou meio século de história. Pioneiro no comércio moderno em Portugal e na Península Ibérica, o emblemático espaço da Boavista atravessou gerações, resistiu a crises e reinventa-se para continuar a fazer parte da vida dos portuenses.

 

O Shopping Brasília, situado na Praça de Mouzinho de Albuquerque, junto à Rotunda da Boavista, no Porto, celebrou, a 9 de outubro de 2026, o seu 50.º aniversário. Inaugurado em 1976, é reconhecido como o primeiro centro comercial da Península Ibérica, tendo desempenhado um papel pioneiro na transformação dos hábitos de consumo e da vida comercial da cidade.

 

Durante cinco décadas, o Brasília foi palco de encontros, descobertas e memórias que atravessaram gerações. Das primeiras viagens nas escadas rolantes às tardes passadas entre montras, cafés e lojas, o espaço tornou-se muito mais do que um destino de compras: passou a integrar a identidade urbana e afetiva do Porto.

 

Depois de conhecer períodos de grande prosperidade, o centro comercial enfrentou desafios significativos, nomeadamente a abertura de grandes superfícies comerciais mais modernas, as sucessivas crises económicas e os efeitos da pandemia de COVID-19. Apesar das dificuldades, manteve-se em funcionamento e iniciou, nos últimos anos, um processo de revitalização destinado a recuperar a sua atratividade.

 

As comemorações do cinquentenário, realizadas ao longo da primeira quinzena de outubro, celebraram não apenas o passado de um espaço emblemático, mas também a ambição de construir um novo capítulo na sua história.

 

 

1976: o nascimento de um centro comercial que revolucionou o Porto

 

Quando abriu portas, a 9 de outubro de 1976, o Shopping Brasília representou uma verdadeira inovação no panorama comercial português. Numa época em que o comércio tradicional se concentrava sobretudo nas lojas de rua, o novo empreendimento apresentou um conceito que reunia dezenas de estabelecimentos num único espaço, proporcionando uma experiência de consumo até então pouco habitual.

 

Um dos maiores símbolos dessa modernidade eram as escadas rolantes. A novidade despertava tanta curiosidade que famílias inteiras se deslocavam à Boavista para experimentar aquele equipamento, subindo e descendo repetidamente, muitas vezes sem qualquer intenção de fazer compras.

 

O fenómeno ultrapassou as fronteiras da cidade. Visitantes de diferentes regiões de Portugal e até de Espanha deslocavam-se ao Porto para conhecer o centro comercial, que rapidamente se transformou numa atração turística e num símbolo de modernidade.

 

Na sua configuração inicial, o Brasília reunia cerca de 242 lojas e uma sala de cinema com aproximadamente 400 lugares. A diversidade comercial, que incluía estabelecimentos de vestuário, acessórios, joalharia e restauração, contribuiu para consolidar a sua posição como um dos principais polos comerciais da região.

 

 

Um espaço pioneiro nos hábitos de consumo e nos horários do comércio

 

O impacto do Shopping Brasília não se limitou à arquitetura ou à concentração de estabelecimentos comerciais. O centro introduziu também novas práticas de funcionamento que contribuíram para alterar os hábitos de consumo dos portugueses.

 

Entre as principais inovações destacou-se o prolongamento dos horários de abertura das lojas até à meia-noite, numa altura em que o comércio tradicional encerrava significativamente mais cedo. Esta mudança permitiu aos consumidores realizar compras depois do horário de trabalho e criou novas dinâmicas de circulação e convivência.

 

O funcionamento alargado exigiu uma organização laboral diferente, com vários turnos de trabalhadores, contribuindo para transformar o centro comercial num espaço de atividade praticamente contínua ao longo do dia.

 

A sua influência estendeu-se à vida social da cidade. Durante vários anos, o Brasília foi um dos locais de eleição para encontros entre amigos, passeios familiares e momentos de lazer, numa época em que os centros comerciais ainda não faziam parte do quotidiano da maioria da população.

 

 

A rapariguinha do shopping: quando o Brasília inspirou a música portuguesa

 

A importância cultural do Brasília ficou também eternizada na música portuguesa. O ambiente das lojas, a modernidade do espaço e a presença de jovens funcionárias inspiraram Carlos Tê a escrever a canção «A Rapariguinha do Shopping», que viria a ser celebrizada pela voz de Rui Veloso.

 

A composição retrata, com humor e observação social, uma figura feminina associada ao universo dos novos centros comerciais, num período em que estes espaços começavam a representar uma mudança de costumes e comportamentos.

 

A ligação entre a canção e a história do Brasília ganhou uma nova expressão nas comemorações do cinquentenário, com a apresentação do livro A Rapariguinha do Shopping Já É Avó, da autoria de Júlio Rodão, a 7 de outubro.

 

O título da obra estabelece uma ponte simbólica entre o passado e o presente. A jovem que representava uma nova geração de consumidores e trabalhadores em 1976 é hoje evocada como testemunha de uma transformação social que atravessou meio século.

 

 

Do Cinema Charlot ao ginásio: cinco décadas de transformação

 

Ao longo da sua história, o Shopping Brasília foi acompanhando as mudanças nos estilos de vida e nas preferências dos consumidores. Para além da atividade comercial, acolheu espaços de lazer que contribuíram para a sua popularidade.

 

Entre os mais emblemáticos encontrava-se o Cinema Charlot, uma sala com cerca de 400 lugares, que durante anos integrou a oferta cinematográfica da cidade. O espaço viria a encerrar, acompanhando as profundas alterações verificadas no setor da exibição cinematográfica.

 

Em 1982, uma nova fase de construção trouxe mudanças à imagem do centro comercial, com a introdução de elementos decorativos característicos da década de 1980, incluindo mármore rosa e superfícies espelhadas.

 

Foi também nessa fase que surgiu um ginásio, associado à crescente popularidade da atividade física e das aulas de aeróbica. A diversificação da oferta ajudou a consolidar o Brasília como um espaço onde o comércio coexistia com o lazer e os serviços.

 

Com o passar dos anos, porém, a expansão de novos centros comerciais, dotados de grandes áreas de estacionamento, hipermercados e complexos de cinemas, colocou desafios à competitividade do Brasília, obrigando-o a adaptar-se a um mercado em constante transformação.

 

 

Renovação de meio milhão de euros impulsionou uma nova fase

 

A recuperação da atratividade do Shopping Brasília ganhou expressão com as obras de remodelação das áreas comuns, concluídas em 2024, num investimento de aproximadamente 500 mil euros.

 

A intervenção procurou modernizar os espaços, melhorar as condições de circulação e tornar o ambiente mais acolhedor, preservando simultaneamente a identidade histórica do edifício.

 

Paralelamente, foi desenvolvida uma estratégia de reposicionamento da marca, assente no conceito «Brasília Faz Parte», que pretende reforçar a ligação emocional do centro comercial à cidade e às diferentes gerações de visitantes.

 

A renovação contribuiu para atrair novos negócios, incluindo estabelecimentos ligados à estética, saúde, bem-estar e serviços especializados. Esta diversificação reflete a transformação do comércio urbano, cada vez mais orientado para uma combinação de produtos e serviços.

 

Em setembro de 2026, a administração indicava que estavam em atividade 223 das 243 lojas existentes, revelando uma ocupação significativa e uma recuperação face aos períodos de maior dificuldade.

 

 

Novos investimentos apontam para o futuro do Brasília

 

A revitalização do Shopping Brasília não se limita à modernização das suas áreas comuns. Entre os projetos anunciados encontra-se a recuperação de espaços que durante anos tiveram um papel relevante na dinâmica do centro comercial.

 

O antigo ginásio, com aproximadamente 700 metros quadrados, foi adquirido pela cadeia Lemonfit, estando prevista a sua reabertura após a conclusão dos procedimentos necessários. O investimento pretende reforçar a oferta ligada ao exercício físico e ao bem-estar.

 

Também o espaço do antigo Cinema Charlot foi adquirido por investidores portugueses, com a intenção de o reconverter num equipamento multiúsos, vocacionado para a realização de eventos e congressos. O projeto encontrava-se ainda em fase de estudo, pelo que a sua concretização dependerá das etapas de desenvolvimento e aprovação necessárias.

 

Estas iniciativas integram uma estratégia mais ampla de adaptação às exigências atuais, procurando transformar o Brasília num espaço multifuncional, capaz de conciliar comércio, serviços, saúde, cultura e atividades profissionais.

 

A localização privilegiada, junto à Rotunda da Boavista, a proximidade de transportes públicos e a integração numa zona central do Porto continuam a constituir vantagens importantes para o futuro do empreendimento.

 

 

Cinquentenário celebrado com arte urbana, literatura e gastronomia

 

O programa comemorativo dos 50 anos do Shopping Brasília incluiu diferentes iniciativas culturais e de animação, procurando envolver comerciantes, visitantes e a comunidade portuense.

 

A 7 de outubro, a apresentação do livro A Rapariguinha do Shopping Já É Avó, de Júlio Rodão, estabeleceu uma ligação entre a memória do centro comercial e a sua presença no imaginário cultural português.

 

No dia seguinte, 8 de outubro, a gastronomia assumiu um papel de destaque, com uma sessão de showcooking que contou com a participação do chefe Hélio e de outros profissionais da cidade.

 

O ponto alto das comemorações aconteceu na sexta-feira, 9 de outubro, precisamente 50 anos depois da inauguração, com a apresentação de um mural do artista urbano Mr. Dheo. A obra, com aproximadamente dez metros de comprimento e seis metros de altura, foi concebida para uma das entradas laterais do centro comercial.

 

As festividades prolongaram-se até sábado, 10 de outubro, com um concerto de encerramento, assinalando simbolicamente a passagem de meio século de um dos espaços comerciais mais emblemáticos do Porto.

 

 

O Brasília faz parte da história e da memória do Porto

 

Cinquenta anos depois da inauguração, o Shopping Brasília continua a representar um capítulo importante da história comercial e social do Porto. Mais do que um edifício dedicado ao consumo, tornou-se um testemunho das transformações económicas, culturais e urbanas ocorridas desde a década de 1970.

 

O espaço que outrora atraía multidões fascinadas pelas escadas rolantes procura hoje conquistar novas gerações através da diversidade comercial, da prestação de serviços e da valorização da sua identidade histórica.

 

A sua longevidade demonstra também a capacidade de resistência do comércio urbano, num contexto marcado pela concorrência das grandes superfícies, pelo crescimento das compras online e pelas mudanças nos comportamentos dos consumidores.

 

Ao celebrar 50 anos, o primeiro centro comercial da Península Ibérica reafirma o seu lugar na memória coletiva da cidade. Entre a nostalgia de quem acompanhou os seus primeiros anos e a curiosidade de quem agora o descobre, o Brasília continua a fazer parte do Porto e procura garantir que assim permanecerá nas próximas décadas.

 

 
📷 Manuel de Sousa
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Cultura, Economia, Porto

O Shopping Center Brasília, considerado o primeiro “shopping” da Península Ibérica, está a assinalar três décadas de história com um programa de comemorações que se estende até dezembro, com iniciativas semanais destinadas a dinamizar o espaço e atrair novos visitantes.

 

As celebrações, organizadas pela Associação de Comerciantes e pela Administração dos Condomínios do centro comercial, arrancaram com um desfile de moda que contou com manequins da agência Best Models, apresentando a coleção de inverno de várias lojas do próprio shopping.

 

 

Um marco histórico no comércio moderno

 

Inaugurado a 9 de outubro de 1976, o Shopping Brasília marcou uma nova era no consumo em Portugal, acompanhando a evolução das tendências e dos hábitos sociais ao longo de várias gerações. Ao longo dos anos, o espaço enfrentou períodos de grande afluência, mas também desafios associados à concorrência e às mudanças no setor do retalho.

 

“As comemorações dos 30 anos são a rampa de lançamento que precisávamos para projectar este espaço à sociedade portuguesa. Não queremos que caia no esquecimento”, afirma Ana Paula Santos, lojista e coordenadora do programa.

 

 

Cultura e arte como motor de dinamização

 

Um dos pontos altos da programação é a exposição “Fascinarte no Brasília”, patente no antigo cinema Charlot, que reúne obras de artistas consagrados como Paula Rego e Júlio Pomar, a par de novos talentos como Alexandre Jordão.

 

A iniciativa pretende reforçar a vertente cultural do espaço e atrair novos públicos. Carlos Van Zeller, presidente da Associação de Comerciantes, acredita que a aposta na arte pode “dinamizar o shopping e criar mais lojas de cultura nas várias vertentes”.

 

Além da exposição, o programa inclui uma feira de minerais com o apoio da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, tertúlias evocativas dos 30 anos do centro comercial e um concurso de pintura para descobrir novos talentos.

 

 

Memórias e identidade portuense

 

O impacto do Brasília na vida da cidade continua presente na memória coletiva. A canção “A rapariguinha do shopping”, de Rui Veloso e Carlos Tê, é frequentemente evocada como símbolo de uma época em que o centro comercial era ponto de encontro incontornável.

 

“Estou aqui desde o início. Quando abriu era uma loucura, vinham pessoas de todos os lados”, recorda Emília Machado, comerciante há 30 anos. Apesar das dificuldades, mantém-se otimista quanto ao futuro: “Temos clientes certos e com este tipo de eventos penso que vamos conseguir trazer de novo o movimento”.

 

 

Plano de renovação para o futuro

 

A revitalização do espaço é uma prioridade clara para os comerciantes. Entre as medidas previstas estão a renovação da fachada, remodelações no interior e a criação de uma nova praça de alimentação.

 

“Não pretendemos olhar para a concorrência. Queremos sim marcar a diferença. Para isso é necessário dinamizar o shopping e recuperar a dignidade que tinha no passado”, sublinha Ana Paula Santos.

 

 
📷 Manuel de Sousa

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